segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Comics


Barbarella #02: Tendo em conta que a série está a ser desenvolvida para o mercado americano, não surpreende que Carey esteja a evitar a sexualização clássica da personagem. O caminho é outro, uma meditação sobre as consequências de sistemas políticos baseados no dogmatismo e ignorância alardeada. Tipo, se calhar, um trumpismo religioso?


X-Men Gold Annual #01: A Goody está a editar por cá no seu alinhamento de revistas estes títulos algo revivalistas do X-Men. Talvez cá chegue este anual, que revisita uma das super-equipas clássicas dos anos 90, os sempre bem humorados Excalibur. Se se recordam, esta foi a resposta de Chris Claremont às bizarrias de Alan Grant com Captain Britain, criando um grupo de heróis misturando X-Men icónicos com personagens da Marvel inglesa para viver aventuras onde imperava o bom humor. Este revivalismo segue-lhe as pisadas, com os nossos heróis a regressar a Inglaterra via voo comercial, porque o combustível para o Blackbird anda muito caro.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Cosmic Odyssey: The Deluxe Edition



Jim Starlin, Mike Mignola (2017). Cosmic Odyssey: The Deluxe Edition. Nova Iorque: DC Comics.

Uma aliança improvável para lutar contra uma ameaça tremenda. O malvado Darkseid, os novos deuses de Nova Genesis e um punhado de heróis terrestres alia-se para derrotar um mal absoluto. Nada menos que a encarnação da equação anti-vida, incapaz de sobreviver na nossa realidade, mas nem por isso incapaz de a destruir. Quatro dos seus emissários criam condições para destruir sistemas solares chave, cujo colapso iniciará uma reação em cadeia capaz de aniquilar a galáxia. Uma encarnação consciente de uma arma criada por uma civilização extinta, cuja xenofobia a condenou a um eterno estado de guerra. Argumento divertido de Jim Starlin, e ilustração explosiva de Mike Mignola.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

La chute de l'Empire humain



Charles-Edouard Bouée, François Roche  (20179. La chute de l'Empire humain : Mémoires d'un robot. Paris: Grasset.

A discussão sobre os impactos da inteligência artificial, robótica e automação geralmente termina numa de duas conclusões: ou as do caos nos sistemas sociais, com a redundância do ser humano numa economia automatizada, ou as utopias singularitárias que prometem libertação e transcendência dos limites humanos graças aos avanços tecnológicos. Dado o estado das coisas no início do século XXI, tempos de capitalismo terminal, neoliberalismo alastrante e desastre ambiental global em curso, o espaço de ideias inclina-se mais para as primeiras e mais distópicas opções.

Mas, e se houvesse uma terceira via? Não uma que nos libertasse das agruras e sonhos dos dois pólos clássicos destas discussões. Uma que os une, traçando uma sociedade futura progressivamente definida  pela IA, robótica e automação, conjugando a obsolescência de parte da humanidade, sem emprego possível numa economia automatizada, com a transcendência potenciada pela tecnologia dos limites humanos para aqueles com riqueza suficiente para pagar as tecnologias. Algo que em si já é uma perspetiva pouco animadora, tornada ainda mais distópica por uma característica que já se nota hoje nestes campos.

A inteligência artificial de que hoje já dispomos potentes exemplos distingue-se pelo poder de computação, pela capacidade de analisar enormes quantidades de dados com uma rapidez e eficácia impossíveis aos humanos. É essa a sua grande promessa, de com isso ser capaz de aumentar as capacidades humanas. No entanto, quando olhamos para lá do deslumbre para os sistemas saídos da IA Watson da IBM, com utilização em apoio a actos médicos, para as proezas das IAs específicas que analisam possibilidades e probabilidades concatenadas com sistemas de aprendizagem (IAs como a Alpha Go, que bate os campões deste jogo asiático, ou os algoritmos de redes neuronais de que a Google faz uso), notamos uma singular fraqueza. Ser capaz de analisar quantidades imensas de dados não é equivalente a gerar novos dados. Para isso, é precisa a intuição e conhecimento humanos, todas as nossas dimensões de inteligência que estão para lá do processamento de informação. Analisar dados, com a potência já disponível hoje nos produtos de inteligência artificial, é uma capacidade imensamente útil, capaz de auxiliar humanos na análise e diagnóstico de situações. Resta a questão da origem dos dados a analisar.

Uma ideia que é sublinhada quase na conclusão deste intrigante ensaio. Ao traçar cenários possíveis de evolução social sob impacto de IA, robótica e automação, Bouée faz notar que para além da quasi-religiosidade da transcendência singularitária e da potencial obsolescência de uma humanidade condenada ao desemprego, um futuro dominado por Inteligência Artificial seria eminentemente estável. O imprevisto e o desconhecido não são quantificáveis, e IAs evoluídas a partir de software analítico teriam uma tendência a estabilizar o conhecimento, não produzindo nada de novo, aconselhando os humanos com base em padrões estáveis. A singularidade aqui torna-se uma imensa estagnação do progresso.

Infelizmente, não é esta a conclusão deste longo ensaio. Nele, Bouée começa por nos levar aos primórdios da computação para nos guiar no desenvolvimento potencial da Inteligência artificial, focando-se nas tendências que hoje a caracterizam. IAs de apoio decisório, robótica industrial mas também pessoal e afetiva, automatização da economia, controle de sistemas sociais com base em algoritmos. São elementos que já hoje se fazem sentir. Projectando um futuro próximo, segue o óbvio caminho da aquisição de consciência por parte do software, enquanto sublinha o potencial estagnador da IA. Querendo terminar numa nota optimista, imagina que as instituições políticas e sociais do futuro serão capazes de reagir e travar este progresso, visto como perigoso para a sobrevivência da espécie humana.

Talvez os robots no futuro olhem com nostalgia para memórias de uma humanidade que os criou e eventualmente se extinguiu, como consequência desse acto de criação. Ou talvez nos mesclemos com as máquinas, transcendendo os nossos limites. Talvez nos estejamos a condenar a um futuro de capitalismo automatizado, sustentando com largueza uma minoria de elites, com o resto da humanidade condenada à pobreza, inatividade e obsolescência. Ou talvez o planeta entre em colapso ambiental antes de termos tido tempo para chegar a este ponto de desenvolvimento, quebrando os sistemas complexos de que depende a nossa sociedade global. O melhor deste tipo de livros está em mostrar-nos que o futuro próximo está cheio de desafios, que a evolução tecnológica acelerada irá mudar radicalmente as nossas noções de sociedade, algo para que temos não só de estar preparados para enfrentar mas também, fundamentalmente, modelar. Apesar do título a roçar a distopia e de um final mais cor-de-rosa do que merecia, este ensaio distingue-se pela sobriedade com que traça o passado, presente e prováveis futuros do desenvolvimento da Inteligência Artificial.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Comics


Batman #38: A temporada de Tom King como argumentista de Batman tem sido impecável. Tem sido excelente em todas as edições, e de uma forma tranquila conseguiu imprimir um novo rumo à personagem, com o arco do casamento com Catwoman. Também de forma tranquila, revisita e desmonta alguns dos mitos fundadores do universo ficcional de Batman. Como a clássica história da sua origem, ponto obrigatório para todos os argumentistas. O interessante é que King não se mete pelos caminhos habituais de voltar a contar a origem de Batman, com alguma variante pessoal. Segue um outro caminho, o da psicose pura, com uma história sobre um jovem milionário de que Bruce Wayne é amigo, com um mordomo fiel, cujos pais são violentamente assassinados. Quase parece um novo Batman, mas este jovem traumatizado decide tornar-se assassino em série. Como bónus, o estilo visual desta história é uma homenagem aos tempos da série com Dennis O'Neill e Neal Adams, cujo traço inspira o do ilustrador desta nova aventura da personagem.


Dastardly & Muttley #05: E isto, caros, é Garth Ennis a divertir-se colidindo iconografias da cultura pop. Ando a vasculhar as minhas memórias de infância, mas não me lembro de Os Malucos das Máquinas Voadoras ser assim tão bizarro.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Perdido nos Museus






Tate Britain, British Museum e National Gallery. Em rota de colisão com os rebanhos de praticantes de selfie com o quadro famoso em série.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Persepolis Rising


James S. A. Corey (2017). Persepolis Rising. Nova Iorque: Orbit.


No final de Babylon's Ashes, o universo de The Expanse parecia em risco de colapso. Com a Terra devastada por ataques com asteróides, as facções de Belters em guerra entre si e a aperceberem-se do tremendo risco de colapso económico, com a única fonte de materiais biológicos do sistema solar em risco de extinção, uma aliança militar entre marcianos e terrestres para dar caça aos rebeldes. Lá longe, muito longe, para lá do portal alimentado pelas estranhas tecnologias da civilização desaparecida que o criou, que nas fímbrias do sistema dá acesso a outros sistemas solares, cada qual com os seus mistérios, um grupo de colonos parece estar a criar uma civilização emergente.

Esperávamos em Persepolis Rising a continuação desta história, talvez uma aventura difícil por entre o ambiente de recuperação em tempos muito difíceis. Mas os autores trocam-nos as voltas, seguindo um outro caminho que não é de si inesperado, focando-se nas acções e ambições dos colonos que, no sistema solar de Laconia, estão a criar uma civilização emergente. Pistas que os Corey nos tinham deixado ao longo dos últimos volumes da série, com os habitantes de Laconia (rebeldes marcianos que roubam um terço da frota militar planetária) a formar importantes narrativas secundárias. O que é inesperada é a deslocação temporal. Entre Babylon's Ashes e Persepolis Rising passam-se trinta anos.
Isto significa que o Rocinante já não é a nave novinha em folha, ex-cruzador marciano apropriado pelo intrépido capitão Holden e sua divertida tripulação. A poderosa nave começa a dar sinais da sua idade. Também os aventureiros já não caminham para novos, a meia idade começa a fazer-se sentir, os cabelos a esbranquiçar. Pelo menos, somos poupados aos minuciosos dramas e politiquices da evolução da sociedade de The Expanse, a fórmula que os Corey sempre exploraram nesta série. Passaram-se trinta anos e as sociedades estabilizaram, a Terra recuperou do desastre ecológico, Marte mantém o seu poder, a sociedade Belter organizou-se numa união que controla a zona de transporte entre sistemas solares, e a sociedade terrestre espalhou-se por entre os mil e trezentos planetas acessíveis a partir do portal.

A princípio, parecemos ir mergulhar em mais uma história-périplo, com o Rocinante a ser enviado a um planeta colonizado por libertários em missão punitiva e Holden, como sempre, a fazer as coisas à sua maneira. Levamos o primeiro baque quando este anuncia que está cansado, quer retirar-se da vida de aventuras, e entrega o comando da nave à ex-marine marciana Bobbie. Como leitores, ficamos intrigados sobre como será a série Expanse sem o seu personagem principal e ponto de charneira. Poderemos esperar uma história com a tripulação do Roci a adaptar-se a uma nova vida, com Holden e Naomi a viver uma tranquila reforma longe de aventuras?

Os Laconianos são as grandes personagens deste livro. Ficamos a saber que, em isolamento voluntário do sistema solar e colónias, desenvolveram uma sociedade militarista e ambiciosa. Sem limites éticos, exploram ao máximo os potenciais das tecnologias alienígenas e da protomolécula. Winston Duarte, o ex-almirante marciano que fundou a sociedade laconiana, está a injectar-se regularmente com um soro destilado a partir do sangue de vítimas da protomolécula. Aos que são considerados criminosos na espartana sociedade laconiana, espera-os um destino atroz nos laboratórios de pesquisa, onde são infetados com a molécula para morrer e, no processo, servirem de colheita de dados e fluídos. Controlando a interacção da molécula alienígena com o corpo humano, Duarte almeja tornar-se imortal, líder único do que pretende ser um império humano que abranja todos os sistemas estelares de The Expanse. Depois de consolidar o seu poder e fazer avançar as suas armas, com incorporação de muita possibilidade tecnológica exótica trazida pela protomolécula, resta-lhe dar o primeiro passo de conquista.

Bastam duas naves. As modificações e tecnologia exótica dos laconianos estão demasiado à frente de tudo o que o sistema solar tem. Com muito pouco esforço, ocupam Medina, a antiga nave geracional Nauvoo, agora estação que orbita o portal entre sistemas solares. Uma das naves segue em direção ao centro nevrálgico do sistema solar, derrotando todos os esforços para a travar. O poderio combinado das potentes frotas terrestre, marciana e da união é incapaz de fazer frente a uma única nave laconiana. A derrota é previsível, a capitulação torna-se a única forma de salvar vidas. Apesar de militaristas e assentes em poderoso armamento, os Laconianos tentam projetar uma aparência de benevolência, mostrando que a invasão é apenas uma forma desagradável de criar uma inevitável e desejável união de toda a humanidade. A situação é desesperada, agravada pela violência da ocupação de Medina. Aos antigos belters, junta-se a tripulação encalhada do Roci. A resistência é inevitável, Holden e o seu bando de aventureiros honrados tem, mais uma vez, um papel decisivo a travar. Para complicar um pouco mais a narrativa, o uso extensivo de tecnologias baseadas na protomolécula atraiu uma atenção indesejada. Algures no passado, a civilização que criou a protomolécula foi extinta por algo ainda mais avançado. Algo que Holden intui quando visitou pela primeira vez o artefacto que se tornaria o ponto de contacto entre mundos, e que volta agora a surgir. Mais do que o risco do universo de The Expanse se tornar uma hegemonia ditatorial militarista, haverá algo ainda mais terrível a caminho.

Como sempre, esta série é escrita comercial no seu melhor. Não perde tempo com grandes especulações sociais, assenta num mundo ficcional muito sólido e plausível, e o encadeamento narrativo é daqueles que não nos deixa parar a leitura. O virar de páginas é compulsivo, queremos sempre saber o que está mais à frente, que aventuras ou desventuras esperam os nossos personagens. É este o grande ponto de interesse de The Expanse. Apesar de muito bem feito, não pretende ser mais do que é, ficção científica de puro escapismo.


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Titus - O herdeiro de Gormenghast



Mervyn Peake (2010).  Titus - O herdeiro de Gormenghast. Porto Salvo: Saída de Emergência.

Há um tremendo ar de grandiloquência barroca neste clássico de Mervyn Peake. O texto é excessivamente trabalhado, filigranado, caricatural a roçar o grotesco. É um ambiente pesado, profundamente gótico no sentido sturm und drang. As personagens são caricaturais, arranstando-se em acção teatralizada por palco decadente, vasto e semi-arruinado. Isto não é fantasia no sentido clássico, de visões bucólicas e feitos heróicos. E é isso que torna este livro interessante.

Este primeiro livro da série Gormenghast (vá, pronunciem a palavra, saboreiem a sua arquitectura gutural, e percebem o barroquismo decadente do livro) é em essência um longo apresentar de personagens, dispondo-as num convoluto tabuleiro de xadrez narrativo. Ficamos a conhecer a incrivelmente disfuncional família senhorial do condado de Gormenghast, com o seu conde moroso, esposa que se interessa unicamente pelos seus gatos, filha semi-selvagem e irmãs gémeas com óbvia deficiência mental. Somos apresentados à caricata entourage de altos funcionários que de se dedicarem a funções fortemente ritualizadas, tornaram-se eles próprios ritualizados. Isto num castelo vasto, entre o sombrio e o assombroso, centro de uma terra que em si também encerra esquisitices quanto baste.

A história, contada com uma lentidão agonizante, narra-nos os primeiros anos de Titus, o filho varão do conde e grande esperança do reino. Um herói que nada faz, é um personagem secundário na sua própria história. O grande personagem é Steerpike, um inteligente e ambicioso anti-herói, jovem que consegue encontrar forma de se erguer de mero escravo de cozinha até se posicionar para se tornar o de facto dono do poder em Gormenghast. Sinuoso e implacável, capaz de manipular com fina inteligência aqueles que o rodeiam, um líder apropriado para a decadência ritual do condado.

A lentidão narrativa é em si outro artifício literário. Sublinha o filigranado barroco do texto, o caricatural das personagens e o teatral das peripécias da narrativa.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Um café com Dylan Dog


Se se é um fã do detective dos pesadelos, esta é uma paragem obrigatória em Londres. Não pela comida, embora aí possa ter tido algum azar, por ter lá ido nos dias da pausa de natal, com o espaço a meio gás. O Cafe Dylan Dog fica pertíssimo da estação de Paddington, logo no início da Craven Road. Precisamente no número 7, que no mundo ficcional de Dylan Dog é a localização da sua casa londrina, lar de Dylan, Groucho, da campainha que urra, do clarinete e do modelo de veleiro que Dylan nunca mais acaba de montar. Na vida real, a rua e a localização existem, e tal como o número 221B de Baker Street, tem um local alusivo ao mundo ficcional.


Numa manhã gelada londrina, daquelas em que a chuva se transforma em revoadas de neve antes de derreter no solo, aproveitei para um pequeno almoço com o Old Boy. Não foi dos melhores english breakfast que comi, mas para um fã de Dylan Dog, é uma experiência incontornável (e sensivelmente mais barata do que Baker Street para fãs de Sherlock Holmes). O espaço é o de um café normal, com ilustrações alusivas a Dylan Dog nas paredes. A que está no mural é mesmo a melhor, as em quadros parecem má fan art.


Atrás da minha mesa, dois agentes da Metropolitan Police tomavam o seu também britânico pequeno almoço. Um, curioso, perguntou ao empregado de balcão quem era este tal de Dylan Dog. Para surpresa minha, este não foi capaz de lhe responder quem é este personagem de fumetti. It's a comic book character, a detective. Like Sherlock?, pergunta um dos agentes. Podia ter intervido, mas achei que os iria assustar. Terminei o pequeno almoço e saí para o frio, em direcção a Baker Street e a outra homenagem geek, esta bem mais mainstream do que a primeira da manhã.

Só me faltou estar ler um exemplar de Dylan Dog enquanto tomava um café. Fica para a próxima.

sábado, 30 de dezembro de 2017

In the rain













I like London... in the rain...

aCalopsia: Nonnonba

 
Shigeru Mizuki (2017). Nonnonba. Palmela: Devir.

A última crítica de 2017 para o aCalopsia, sobre um livro que foi das melhores surpresas do ano..

A mitologia tradicional em vias de esquecimento num Japão em pleno processo de modernização é revisitada pelo olhar deslumbrado de uma criança, que sente uma enorme curiosidade pelas criaturas fantásticas das histórias de uma velha ama. Em Nonnonba, tradições ancestrais e recordações de infância cruzam-se numa história cativante, que dá a conhecer ao público português um dos grandes marcos da obra de Shigeru Mizuki. Edição da Devir, reforçando com a sua aposta na coleção Tsuru a vontade de trazer aos leitores portugueses autores e obras marcantes do mangá. Crítica completa no aCalopsia: Nonnonba.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Where Wizards Stay Up Late



Katie Hafner, Mathew Lyon (1998). Where Wizards Stay Up Late: The Origins of the Internet. Nova Iorque: Simon & Schuster.

Uma intrigante visão dos primórdios da internet, contada em ritmo jornalístico. Foca-se pouco nos detalhes técnicos, preferindo olhar para o trabalho desenvolvido pelas personalidades que marcaram o desenvolvimento da internet. Começa na ARPA, mostrando com a visão de computação interconectada levou o seu primeiro impulso lá, desmontando o mito de ser um método de comunicação pensado para sobreviver a uma guerra nuclear. A visão que veio dar origem à internet foi, desde o princípio, de interconectar instituições e cientistas. São contados os primeiros passos da rede, desde as propostas de Licklider na ARPA aos primeiros nós criados e programados a partir de computadores Honeywell pelos engenheiros da Bolt Beranek Newman, os Interface Message Processors, que implementaram as redes de packet switching e, pela primeira vez, interligaram computadores em diferentes localizações geográficas, criando a primeira rede informática.

O resto é uma história de crescimento exponencial, que desmonta outros mitos de criação da internet. Desde o início que a cooperação internacional marcou a nascente internet, com o trabalho do inglês Paul Davies na universidade de Londres e o projeto francês Cyclades, outros pioneiros das redes de computador, a integrar as propostas técnicas que fizeram evoluir a internet. Detalha também a consolidação de diferentes propostas técnicas no uso do TCP-IP e ethernet, mostrando como o espírito de propor, testar e construir esteve presente na rede desde os seus primórdios, sublinhado especialmente no triunfo do TCP-IP sobre a imposição da norma OSI, imposta pela ISO. A evolução orgânica, aberta à multiplicidade de propostas e discussão de ideias, está presente na rede desde os primeirissimos tempos da Arpanet.

Há detalhes muito curiosos, como a descrição da primeira grande demonstração pública da ARPANET num congresso de telecomunicações e computação, que fascinou os seus participantes por, por exemplo, poderem conversar uns com os outros em janelas de terminais de computador; a imposição do email como aplicação que fez verdadeiramente vingar a internet, pensada mais como forma de interligar sistemas em interfaces mais formais, mas foi o poder da comunicação informal que a fez vingar. De tal forma que já nos anos 70 se colocavam problemas como excesso de emails.

O livro termina com o desligar da ARPANET e sua incorporação nas míriades de redes que lhe sucederam, numa interligação progressiva que gerou a internet que conhecemos hoje. Uma rede cujos potenciais e impactos sociais não passaram despercebidos desde os seus primórdios por aqueles que a construíram. Mais do que ligar computadores, pretendiam ligar comunidades de cientistas.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

L'Ombre de Wewelsburg



Richard Nolane, Maza (2017). Wunderwaffen T11: L'Ombre de Wewelsburg. Toloun: Soleil.

Estará esta intrigante ucronia a chegar ao fim? A arma do misterioso alienígena encontrado sob os gelos da antártida, que poderá atacar no espaço e no tempo, ao ser usada pela primeira vez irá recuar ao passado e travar o desembarque aliado na normadia. Ou talvez não, o futuro está em aberto nesta série intrigante. Série que vive essencialmente da especulação sobre as armas futuristas que na nossa realidade nunca passaram de planos ou conceitos, mas no mundo de Wunderwaffen animam as vinhetas com tecnologias impossíveis recriadas pelo traço rigoroso de Maza.

sábado, 23 de dezembro de 2017

aCalopsia: Mensur


Rafael Coutinho (2017). Mensur. Lisboa: Polvo.

Entre o estoicismo da honra absoluta e um grafismo explosivo, Mensur é a mais recente edição portuguesa do autor brasileiro Rafael Coutinho. Proposta de banda desenhada brasileira da Polvo, Mensur traz ao público português o surpreendente trabalho gráfico e narrativo de Rafael Coutinho. Nesta história sobre o absolutismo da honra, o grafismo explode a cada página. Crítica completa no aCalopsia: Mensur, de Rafael Coutinho.

Azul





Nesta luz fria de inverno. Óbidos e Torres Vedras.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Electronic Superhighway








Uma exposição que reúne projetos de despertar a reflexão no domínio da arte digital. Desde trabalhos de desenho criado por algoritmos a reflexões sobre a sociedade panopticon e o impacto das redes na sociedade e indivíduos.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Life 3.0



Max Tegmark (2017). Life 3.0: Being Human in the Age of Artificial Intelligence. Nova Iorque: Knopf.

Um livro que começa com uma das piores distopias bem intencionadas que já li nos últimos tempos, com Tegmark a explanar a sua visão de um grupo benévolo de engenheiros que liberta gradualmente uma inteligência artificial avançada que dá origem a uma era de prosperidade económica e progresso social sem precedentes. A utopia de uns é a distopia de outros e, pessoalmente, arrepiou-me a visão de uma quasi-ditadura oculta benévola que usa todo o tipo de influências para modificar o comportamento humano.

O lado especulativo é mesmo o melhor deste livro. Se pegarem nele olhando para as credenciais do autor como uma obra capaz de dar um panorama sobre o estado da arte e potencial da IA, hoje, desenganem-se. Apesar de abordar algumas questões éticas e económicas, pouco ou nada é dito sobre  atualidade (exceto longos parágrafos sobre as iniciativas que Tegmark está envolvido). Ao especular, lega-nos alguns capítulos intrigantes sobre potenciais, perigos e possibilidades da IA, desde impactos económicos e biológicos até à exploração espacial futura. Sem negar os potenciais perigos da IA (colapsos econónicos, forças menos benevolentes que os engenheiros idealistas com que abre o livro, obsolescência da humanidade face à sua sucessora artificial), o livro está demasiado imbuído daquele típico positivismo silicon valley, um optimismo sem limites que vê as problemáticas negativas mais como meros sobressaltos no caminho do que obstáculos sérios. Vale pela especulação, tudo o resto deixa a desejar.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

aCalopsia: Silêncio



Depois de Cidades, o coletivo The Lisbon Studio regressa à edição com TLS Series: Silêncio. Silêncio é uma aposta intrigante, que desvirtua de forma inteligente o marketing tradicional, dando aos leitores de banda desenhada portuguesa uma boa leitura que é, em essência, um mostruário do trabalho dos colaboradores do Lisbon Studio. Crítica completa no aCalopsia: The Lisbon Studio Series Silêncio.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Dylan Dog: Dopo un lungo silenzio; Mater Dolorosa; Remington House



Tiziano Sclavi, Giampiero Casertano (2016). Dylan Dog #362: Dopo un lungo silenzio. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

O título tem um duplo sentido, óbvio para quem conhece a personagem. Para além de ter diretamente a ver com a história, é também uma declaração de Tiziano Sclavi, que assina esta aventura do Old Boy após um longo afastamento da série que criou. Vivendo uma nova paixão, Dylan cede à tentação e recomeça a beber. Toda a história é uma longa recaída de Dylan no alcoolismo, enquanto investiga o caso de um viúvo, também alcoólico, que sente a presença fantasmagórica da sua falecia esposa precisamente no silêncio soturno que se instalou na sua casa. Daqui há um desvio ao espiritismo e às fotografias de fantasmagorias, mas o cerne da história é a luta de Dylan Dog contra o seu pior demónio, o que vive encerrado dentro das garrafas. Um bom regresso do velho mestre.



Roberto Rechioni, Gigi Cavenago (2016). Dylan Dog #361: Mater Dolorosa. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

Uma espécie de continuação do brilhante Mater Morbi, um dos melhores momentos de Recchioni em Dylan Dog. A sensual e fetichista encarnação da morbilidade regressa para atazanar Dylan, mas desta vez temos direito a uma inesperada linha narrativa. No passado, um pai luta contra a morte iminente do seu filho procurando desenvolver um soro que lhe conferirá uma vida prolongada. A mãe infecta-se com o vírus da doença, num bizarro desespero para ajudar o filho. Caem nas mãos de Mater Morbi, e o leitor intui que este jovem Dylan, às portas da morte num veleiro britânico do século XVIII talvez seja o Dylan de hoje. A criança sobreviverá à doença, mas ficará para sempre marcada por Mater Morbi. No presente, um Dylan febril e temendo a morte evita tudo e todos, acabando por se arrastar para uma vila à beira-mar que exerce sobre ele um estranho fascínio. A localidade ao largo da qual, centenas de anos atrás, se afundou numa tempestade um navio amotinado, o mesmo navio onde se passou a curiosa linha narrativa deste livro. Regressa o fetichismo de Mater Morbi, e Recchioni explora possibilidades da origem de um personagem que sempre conhecemos como adulto, sem saber como surgiu. Capitalizando no sucesso de Mater Morbi, a Bonelli editou esta aventura do Old Boy num registo a cores, afastando-se da estética preto e branco habitual na série para um estilismo assombroso.



Paola Barbato, Sergio Gerasi (2016). Dylan Dog #360: Remington House. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..

De Paola Barbato podemos sempre esperar argumentos estanques, dinâmicos e bem construídos. Este não é exceção. Reminton House foi o local de um crime horrendo, com um homem a matar toda a família com requintes de violência. Foi também um trauma do passado de Dylan, que, quando jovem recruta na Scotland Yard, se deparou com este crime monstruoso. Décadas depois, a casa é uma atração turística para os amantes dos crimes violentos, com visitas guiadas a mostrar as atrocidades que aconteceram em cada local. Uma das guias, temendo perder o seu emprego, pede encarecidamente que Dylan visite a casa com ela e lhe conte os pormenores do crime. Essa visita irá despoletar algo que há muito era aguardado. Os espíritos inquietos do assassino e suas vítimas vão possuir os visitantes, recriando os assassínios violentos, e exigem a Dylan que cumpra o seu papel para serem, finalmente, libertados da maldição.