segunda-feira, 31 de julho de 2017

Visões



Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (Luc Besson, 2017)

A ironia disto é recordar que quando os livros da série Valérian: Agente Espácio-Temporal estavam a ser cá editados pela Meribérica, não lhes ligava muito. Muito por culpa do traço de Mézières, naquele estilo típico da BD franco-belga a meio caminho entre o realismo e o cartoon. Enche o olho e ao longo dos álbuns vai evoluindo para visões cada vez mais espantosas, mas para um leitor habituado ao rigor do traço dos ilustradores de FC, o estilo meio cartoon da série era um desmotivador. Isto, e também nunca ter percebido se o surrealismo das personagens e histórias de Christin era para ser levado a sério. Valérian e Laureline não estão pensados para atingir o patamar da obra de um Druillet. É um pouco surpreendente ver esta série mais juvenil do que marcante a tornar-se quase de culto. Ou talvez não o seja, talvez seja uma impressão criada pelo esforço de marketing para promoção da adaptação cinematográfica de Luc Besson.


Uma adaptação que me deliciou. Besson explora muito bem o lado space opera barroca da série, num filme visualmente deslumbrante, que leva ao extremo aquela estética de FC entre o surreal e o psicadélico tão em voga nos anos 60 e 70. É-nos impossível ficar indiferentes ao poder da imagética avassaladora posta à solta por Besson, ao ponto da sobrecarga visual. Algo que já se notava em O Quinto Elemento, aqui levado além dos limites. O material de base isso permite esses voos. Quando se dedica à FC, nota-se que este realizador gosta de fugir ao grimdark, às distopias ou ao realismo sujo, e dá-nos visões quase arcádicas de um futurismo exuberante e exótico.

Baseado no livro O Império dos Mil Planetas, este filme mergulha-nos de chapa, sem sobreaviso, no lado mais esplendoroso do universo de Valérian. Besson não nos poupa, num constante assalto aos nossos sentidos, talvez a esforçar-se de mais para nos mostrar o porquê de tanto gostar destes personagens. Besson é um realizador eficaz, que sabe muito bem gerir o ritmo de um filme comercial, e é talvez aqui que este falhe. A estrutura linear de um filme blockbuster não se adapta bem à vastidão deste universo ficcional. A vénia de simplificação para o público não europeu, com um foco excessivo e a roçar o lamechas na relação amorosa entre Valérian e Laureline, sente-se como oca e  prejudicar o filme.

No fundo, este filme é um bom espelho da série em que se baseia. Um deslumbre visual, arrojado no seu surrealismo barroco, mas sem o esforço de sustentação do universo ficcional que suporta a melhor space opera. Recomenda-se o seu visionamento num ecrã bem gigante, que valorize o visual do filme. E prestem atenção ao momento em que num bairro de prazeres exóticos o intrépido agente se livra de uma prostituta com aspecto de Madame Pompadour, que lhe diz viens, suivez moi, com um hilariante I don't speak french. Uma óbvia piada num filme realizado por franceses, inspirado num clássico da BD francesa. Ou, talvez, Besson a picar os espectadores conhecedores do género, a recordar-lhes que há mais universos a explorar do que o continuum anglo-americano/nipónico da ficção científica actual.

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